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Marchando para qual Jesus?
Por Administrador
Publicado em 04/06/2026 23:55
Crônicas

MARCHANDO PARA QUAL JESUS?

 

Confesso que nunca consegui entender completamente a Marcha para Jesus.

Não estou dizendo que sou contra. Também não sou daqueles que criticam qualquer manifestação pública da fé cristã. Pelo contrário. Considero saudável que cristãos ocupem espaços públicos sem constrangimento, testemunhem sua fé e demonstrem que ainda existem valores espirituais capazes de reunir multidões.

Mas, depois de tantos anos assistindo às sucessivas edições da marcha, continuo me fazendo a mesma pergunta: qual é, afinal, a sua finalidade?

É evangelismo?

Se for, seria interessante conhecer os seus frutos. Quantos ouviram o Evangelho pela primeira vez? Quantos foram alcançados por uma mensagem de arrependimento? Quantos tiveram suas vidas transformadas?

É comunhão entre os cristãos?

Talvez. Embora a comunhão descrita no Novo Testamento sempre tenha me parecido algo mais profundo do que caminhar algumas horas ao lado de milhares de desconhecidos embalados por trios elétricos.

É uma demonstração pública de fé?

Pode ser.

Mas olhando as imagens da marcha deste ano, a impressão que tive foi outra.

Vi milhares de pessoas sinceramente reunidas em nome de Jesus. Não tenho dúvidas de que a maioria estava ali movida pela fé. O problema não estava na multidão.

O problema parecia estar no palco.

Ali estavam cantores, pastores, influenciadores, autoridades e políticos dos mais variados espectros ideológicos.

Em determinado momento, o bispo Estevam Hernandes colocou o presidente Lula em uma ligação telefônica para falar aos participantes do evento. Pouco depois, entre autoridades presentes, aparecia também o ministro Messias.

Não o Messias anunciado pelos profetas.

Não o Messias nascido em Belém.

Mas um Messias da República, indicado ao Supremo Tribunal Federal pelo presidente da República e recentemente rejeitado pelo Senado para ocupar uma vaga na mais alta Corte do país.

A cena possuía uma ironia quase literária.

Havia um Messias na Marcha para Jesus.

Mas não era dele que a multidão cantava.

A bem da verdade, seria desonesto fingir que o problema está apenas de um lado.

Enquanto figuras ligadas ao governo buscavam seu espaço diante do público evangélico, representantes da oposição também desfrutavam de seus momentos sob os holofotes.

Em determinado momento, Flávio Bolsonaro conduzia o público em manifestações e palavras de ordem que, para um observador mais distraído, poderiam facilmente ser confundidas com um ato de campanha.

E foi exatamente aí que percebi o que realmente me incomodava.

Não era Lula.

Não era Bolsonaro.

Não era a esquerda.

Não era a direita.

Era a naturalidade com que tudo aquilo parecia acontecer.

Como se fosse perfeitamente normal transformar um evento cristão em uma extensão da disputa política nacional.

Como se Jesus precisasse de padrinhos políticos.

Como se o Reino de Deus dependesse das urnas.

Como se a cruz de Cristo necessitasse do apoio de marqueteiros.

A Bíblia registra multidões seguindo Jesus pelas estradas da Galileia. Mas havia uma diferença fundamental: elas caminhavam para ouvir Cristo.

Hoje, muitas vezes, parece que Cristo virou apenas o tema do evento.

As atenções se voltam para os artistas.

Para os influenciadores.

Para as autoridades.

Para os candidatos.

Para os projetos de poder.

E Jesus acaba ocupando o lugar que sobra na programação.

Talvez eu esteja ficando velho.

Talvez eu esteja excessivamente desconfiado.

Ou talvez eu apenas sinta falta da simplicidade do Evangelho.

Aquele Evangelho que transformou o mundo sem precisar de trio elétrico, sem precisar de celebridades, sem precisar de marketing e sem depender de alianças eleitorais.

Ao final da marcha, fiquei com uma impressão difícil de ignorar.

Milhares de pessoas certamente marcharam para honrar a Deus.

Mas nem todos os que estavam sobre os palcos pareciam marchar na mesma direção.

E foi então que me ocorreu uma conclusão inquietante.

Quando políticos viram pregadores e pregadores, cabos eleitorais, a marcha continua acontecendo.

A dúvida é se ela ainda está indo para Jesus.

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