EDITORIAL
A Pátria de Chuteiras e de Joelhos Quebrados
Existe um país de dimensões continentais que padece de uma miopia espiritual e cívica crônica. Um lugar onde a paixão nacional foi terceirizada para onze homens de calções curtos correndo atrás de uma esfera de couro. Nas redes sociais — esse grande tribunal do nada —, o povo verte suor, lágrimas e caracteres exigindo a perfeição divina de meros mortais. Esperam o milagre da Salvação vindo de um atacante milionário, mas esqueceram-se de olhar para o alto. A fé em Deus foi substituída pelo algoritmo; a oração sincera deu lugar à cobrança histérica por um drible perfeito.
O paradoxo beira o ridículo. Exige-se excelência milimétrica de jovens atletas que, se bem-sucedidos, acumularão ainda mais patrimônio pessoal e glórias particulares. Enquanto isso, o cidadão deita-se em berço esplêndido perante a atuação patética, rasteira e autointeressada de seus parlamentares e governantes. Cobram-se gols como se deles dependesse o pão na mesa, mas tolera-se a incompetência legislativa que, de fato, rouba o pão da mesa.
O Circo dos Leões Desdentados
A mediocridade nacional ganha contornos de tragédia bufona quando observamos o topo da pirâmide. O que esperar de um governante que, em vez de gerir os destinos da nação, prefere o picadeiro? Um líder que desce ao nível mais baixo do debate público para ridicularizar publicamente o atleta com o melhor currículo de sua esquadra, chamando-o de "craque adepto do home-office", simplesmente pelo prazer sádico e juvenil de fustigar a ideologia que o esportista defende.
Não se trata de criticar o desempenho técnico; trata-se de um espetáculo de pura mesquinharia política. Para o governante polarizador, o talento, a história e o esforço do indivíduo não valem nada se ele não rezar pela mesma cartilha ideológica. Prefere-se ver a própria esquadra ruir a admitir que o "adversário político" possa ser um vencedor no seu campo de atuação.
Quando a vaidade partidária supera o orgulho nacional, o Estado deixa de ser um projeto de futuro e passa a ser um cercadinho de quinta categoria.
A Provocação Oculta Pela Cegueira
Essa mesma cegueira ideológica contamina a análise do jogo. O reflexo mais recente dessa doença coletiva está na chuva de críticas ao jogador Neymar. Em meio ao clima de polarização, muitos o atacaram por ter desafiado o goleiro norueguês Nyland no último lance do jogo, quando a conversão da penalidade não mudaria o quadro de eliminação.
Subestimam a inteligência do genial atleta. Mesmo sabendo da desclassificação matemática, ele enxergou naquele lance a oportunidade cirúrgica de dar um recado claro aos seus opositores críticos. Ao desafiar o goleiro, converter com maestria e disparar o recado "comigo não", o atacante escancarou uma verdade indesejada por seus detratores políticos: se ele estivesse em campo desde o início, não teria perdido o pênalti que de fato mudaria a história do jogo quando o placar ainda apontava zero a zero. Mas, seja por incapacidade intelectual ou pura maldade, o ódio partidário dos críticos é incapaz de alcançar essa obviedade.
A Linha de Impedimento da Razão
Essa obsessão doentia transformou o país em um tabuleiro de xadrez em preto e branco, sem espaço para nuances. A polarização política extrema virou uma metástase que contaminou todas as células da sociedade:
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A Família: Almoços de domingo transformados em zonas de guerra por causa de políticos que sequer sabem a existência daqueles parentes.
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A Igreja: Altares que deveriam proclamar a transcendência divina sendo usados como palanques de imundície terrena.
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O Esporte: Onde a cor da camisa importa mais do que a capacidade de fazer o gol.
Seja você um doutor em sociologia ou alguém que mal consegue ler as manchetes dos portais de fofoca, a verdade é uma só e salta aos olhos de todos: estamos trocando o essencial pelo supérfluo. O intelectual analisará a "perda de capital social e a erosão das instituições democráticas"; o homem do povo dirá, com a sabedoria das ruas, que "o Brasil está de ponta-cabeça". Ambos estão cobertos de razão.
Um país que coloca suas esperanças em jogadores de futebol e seus ódios em governantes fúteis está condenado a assistir ao jogo da própria decadência diretamente da arquibancada dos derrotados. É hora de parar de cobrar o atleta e começar a cobrar o espelho.