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A GERAÇÃO QUE PERDEU A CAPACIDADE DE SE ENVERGONHAR
Por Administrador
Publicado em 04/07/2026 23:39
Artigos

A GERAÇÃO QUE PERDEU A CAPACIDADE DE SE ENVERGONHAR

Por Samuel Souza

 

Há alguns dias, enquanto navegava pelas redes sociais, deparei-me com um vídeo que, há vinte ou trinta anos, causaria indignação em praticamente qualquer ambiente cristão. O que mais me chamou a atenção, entretanto, não foi o conteúdo em si, mas a reação das pessoas. Milhares de curtidas. Comentários bem-humorados. Compartilhamentos. E ninguém parecia constrangido.

Confesso que desliguei o celular e fiquei pensando numa pergunta incômoda: será que o maior problema da nossa geração já não é mais o pecado, mas a perda da vergonha de pecar?

A Bíblia sempre tratou a vergonha como um mecanismo moral importante. Não a vergonha produzida pela humilhação ou pela rejeição das pessoas, mas aquela que nasce quando a consciência percebe que algo está errado diante de Deus.

Quando Adão e Eva pecaram, a primeira consequência foi justamente essa. Eles perceberam que estavam nus e procuraram esconder-se. A vergonha revelou que a consciência ainda estava viva.

Hoje parece acontecer o contrário.

Não apenas se peca.

Publica-se.

Filma-se.

Compartilha-se.

Transforma-se em conteúdo.

Aquilo que antes permanecia escondido agora é exibido como troféu.

Não estamos falando apenas da sociedade. Infelizmente, esse comportamento também alcançou parte da Igreja.

Há poucos anos seria impensável ver cristãos disputando espaço nas redes sociais por meio de polêmicas, linguagem vulgar, sensualidade ou humor de duplo sentido. Hoje, porém, isso se tornou tão comum que muitos já não conseguem perceber o problema.

Pastores fazem piadas que antigamente jamais fariam em um púlpito.

Influenciadores cristãos recorrem ao sensacionalismo para aumentar o alcance de suas publicações.

Palestrantes utilizam expressões chulas para falar de assuntos que deveriam ser tratados com reverência.

E, quando alguém manifesta preocupação, logo aparece a resposta pronta: "Você é muito religioso", "isso é coisa do passado", "precisamos nos atualizar".

Será mesmo?

Ou será que estamos apenas perdendo a capacidade de corar?

O profeta Jeremias fez uma pergunta impressionante ao descrever a decadência espiritual de Judá:

«"Envergonham-se eles de cometer abominação? Não, de maneira nenhuma; nem sabem que coisa é envergonhar-se." (Jeremias 6:15)»

Sempre que leio esse texto fico pensando que ele poderia ter sido escrito para os nossos dias.

Chega um momento em que a consciência deixa de reagir.

O pecado continua sendo pecado.

Mas já não incomoda.

A linguagem continua vulgar.

Mas já não constrange.

A roupa continua inadequada.

Mas já não causa estranheza.

A mentira continua sendo mentira.

Mas passa a ser chamada de estratégia.

A ganância vira empreendedorismo.

A vaidade vira autoestima.

A sensualidade vira empoderamento.

E o pecado ganha novos nomes para parecer menos ofensivo.

Essa talvez seja uma das maiores vitórias de Satanás sobre uma geração: não convencer as pessoas de que Deus não existe, mas convencê-las de que já não precisam sentir vergonha daquilo que Deus condena.

O inimigo sabe que a consciência é como um alarme. Enquanto ela dispara, ainda existe esperança. O perigo começa quando o alarme é desligado.

É exatamente isso que acontece quando o pecado deixa de causar constrangimento.

Primeiro ele nos incomoda.

Depois nos acostumamos com ele.

Em seguida passamos a justificá-lo.

Por fim, começamos a defendê-lo.

A Bíblia chama esse processo de endurecimento do coração.

Não acontece de um dia para o outro.

É lento.

Silencioso.

Quase imperceptível.

Começa quando damos pequenas concessões.

Quando assistimos ao que antes não assistiríamos.

Quando rimos daquilo que antes reprovaríamos.

Quando repetimos palavras que antes nos causariam desconforto.

Quando chamamos de normal aquilo que Deus continua chamando de pecado.

Por isso me preocupa tanto a perda do pudor.

Pudor não é atraso.

Não é ignorância.

Não é falta de informação.

Pudor é o reconhecimento de que existem limites estabelecidos por Deus e que nem tudo aquilo que pode ser mostrado deve ser mostrado, nem tudo aquilo que pode ser dito deve ser dito.

Vivemos na geração da exposição.

As pessoas fotografam a própria comida, a própria casa, as próprias viagens, as próprias lágrimas e até os momentos mais íntimos da família.

Tudo precisa ser publicado.

Tudo precisa ser comentado.

Tudo precisa render visualizações.

Nesse ambiente, o constrangimento passou a ser visto como defeito.

Quanto menos vergonha alguém demonstra, mais autêntico parece.

Mas o Evangelho nunca ensinou isso.

Jesus nunca disse que deveríamos perder a sensibilidade moral.

Ao contrário. Ele ensinou que bem-aventurados são os limpos de coração.

O apóstolo Paulo orientou os cristãos a pensar em tudo o que é puro, respeitável e de boa fama.

Pedro exortou as mulheres ao pudor e à modéstia.

Os apóstolos insistiram repetidamente na santidade.

Não porque Deus desejasse roubar nossa alegria.

Mas porque conhecia o coração humano.

Quando perdemos a capacidade de sentir vergonha do pecado, perdemos também uma das últimas barreiras que impedem sua completa normalização.

É por isso que não devemos nos preocupar apenas quando o mundo deixa de corar.

Devemos nos preocupar quando a Igreja também deixa.

Talvez o verdadeiro avivamento de que tanto falamos não comece com templos cheios nem com grandes manifestações emocionais.

Talvez ele comece quando homens e mulheres voltarem a entristecer-se pelo próprio pecado.

Quando voltarem a chamar o pecado de pecado.

Quando voltarem a sentir santo temor diante da presença de Deus.

Vivemos numa geração que perdeu a capacidade de se envergonhar.

Mas o Evangelho continua tendo poder para restaurar consciências.

E uma consciência restaurada volta a fazer aquilo que esta geração desaprendeu: tremer diante da Palavra de Deus.

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